Cidadão destaque


Entre todos, ele pode tudo. Satisfaz os desejos de sua grandiosa fragilidade humana. A carteira de couro, toda feita em detalhes, carrega cartões de crédito das mais variadas cores e sabores. Sabores sim, como o delicioso chocolate quente que toma no café da manhã em sua cozinha grande e fria.
Frio que está presente em suas viagens, pois sozinho, não há calor humano que o aqueça, já que também não o conhece. Porém, conhece o mundo de norte a sul e de leste a oeste. Viaja para rever detalhes de lugares em que esteve só.
Compra tudo e todos. Hoje, o cidadão destaque tem poder de comprar e julgar o outro. Outro que ele não conhece. Outro que, às vezes, em um botão qualquer do controle remoto insiste em aparecer como barreira aos limites do cidadão destaque. Mas o outro é frágil e a barreira é quebrada com um simples toque no companheiro amado: o controle remoto.
No carro, os vidros são escuros como a sala onde trabalha de segunda a segunda. No caminho, nada interrompe sua viajem. O silêncio ensurdecedor do carro é quebrado com um grito. O cidadão grita para si mesmo que é feliz e que pode ser modelo para tudo e todos, pois alcançou o sucesso profissional.
Mas, modelo? Para quem, se o outro não existe?


Autor: Fabiano Fachini

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Chuteiras cor-de-rosa


No país do futebol, as chuteiras mudaram de cor. Não são mais as brancas de Rivaldo ou as amarelas do chamado “fenômeno”. Após a experiência do PAN, chegou a hora das chuteiras cor-de-rosa. O futebol das meninas seduziu a todos os brasileiros. Marta encantou o Brasil, mas já havia encantado o mundo. Uma lástima, pois assim como o país não conhecia a melhor do mundo, também não havia dado ouvidos ao que elas queriam: ser reconhecidas. E olha que em Atenas elas já haviam conquistado esse direito!

Alguns brasileiros recuperaram a alegria de ver futebol, ou melhor, de ver a amarelinha brilhar novamente; trabalhar com a bola como se ela, mais a jogadora, fossem peça única. Até que, por fim, a rede balance e, os gritos e aplausos encham o estádio.

Um futebol de charme e beleza, que envolveu os belos lances do jogo, a unha verde-amarela, os cremes e os penteados. Para aqueles que não viram a seleção de 70 e acreditam ter perdido a fase do “futebol arte”, ver Marta, Cristiane e todo o time feminino esbanjar habilidade em solo brasileiro foi recompensador. Elas enfeitaram o jogo e balançaram a rede com a bola, com o grito e com o choro do pódio.

Muitos perderam o fôlego ao ver a Maracanã lotado, num momento em que a amarelinha é trocada por dinheiro e desafetos. O espírito do futebol ressurgiu ao ver o estádio repleto de sorrisos, e não de brigas; de crianças com bandeiras e não adultos com maldade; num Maracanã cantando e não vaiando. Este foi um momento eterno, assim como os pés de Marta na Calçada da Fama da Maracanã ao lado de outros craques do futebol, como Pelé, Zico e Garrincha.

“Dunga: olha a Marta”, gritaram os novos filhos do futebol. Novos, pois crianças e mulheres foram pela primeira vez a um estádio. Tiraram o corpo do sofá e se deliciaram com uma partida ao vivo. Puderam ver dribles, canetas, embaixadas, chapéus, enfim, um futebol com tesão, diferentemente do apresentado pela “amarelinha pentacampeã”, que apesar de vencer “los hermanos”, mal conseguiu fazer sorrir.

E a esperança continua. Um homem sem esperança tem pouco futuro. Quem sabe a Seleção reconhecida mundialmente, que há anos conquistou respeito e admiração, possa voltar aos velhos e bons tempos. Para os que não conseguirem ver essa reafirmação do futebol penta, apreciem, com satisfação e orgulho, o futebol bonito e alegre das chuteiras cor-de-rosa.

Fabiano Fachini – crônica publicada no Saiba+ em agosto de 2007.