Rica no busão

Um pouco de tudo acontece no ônibus. Pessoas caem; cobrador que não fala; bêbado pedindo silêncio; reclamações pelo troco da passagem; beijos; risadas; e partilha de sovacos – como diriam os humoristas.
Estava convencido: nada mais poderia me surpreender no busão. Mas, como diz o ditado, há tempo para tudo.
Em plena sexta-feira, horário de o trabalhador pegar ônibus, eis que surge uma senhora, toda sorridente, no ponto de ônibus.
– Esse vai para…
– Não. (responde seco o motorista)
-Mas passa perto de…
-Mais ou menos. (retruca o motorista)
Na dúvida, a senhora que aparentava entre 45 e 50 anos, entrou sorridente e brilhante. Sorridente, acredito, por estar entrando em um ônibus de linha e brilhante, pois ornada de anéis, colares, pulseiras e brincos de ouro destacava-se em meio aos “outros”.
Na estréia em um ônibus, ela conquistou os demais passageiros – claro que estes com certa estranheza. A madame cheia de jóias sorria, sorria e sorria enquanto conversava com todos do ônibus.
– Olha esse jovem! (indicava com o dedo a madame para a moça com quem puxava conversa).
– Sabe onde fica a região… (perguntava a senhora a outro passageiro)
– Essa região do… eu conheço pouco. (respondeu o senhor de rosto suado e olhos cansados)
Então ela procura outra pessoa para conversar. Queria conhecer. Interesse semelhante a um bebê quando quer conhecer – com as mãos – os brinquedos de uma loja infantil.
– Cobrador. É no próximo que eu desço? (interroga, sorrindo, a senhora)
– É! Mas vai ter que caminhar. (Responde o cobrador enquanto prende o chiclete nos dentes da frente)
– Não faz mal. Minha filha é magrinha… de tanto caminhar. (responde a sorridente e brilhante madame)
Uma frase perdida, mas talvez ela tenha usado para ressaltar a falta de exercício, pois estava um pouco acima do peso.
Chega ao ponto e a madame agradece o cobrador pela dica. Então, ela bate sem querer as pulseiras douradas ao segurar na porta do ônibus para descer. Envergonhada, ela sorri – como da vez em que quase caiu devido a uma freada brusca que o motorista precisou realizar durante o caminho – com alegria de quem prova algo novo e gosta, ou ao menos se surpreende.
O novo que talvez esteja no recíproco sorriso das pessoas; na explicação do cobrador; no bocejar de sono do jovem cansado; no andar pesado do busão se comparado a sua Mercedes; no ar abafado; na mistura dos desodorantes de mercado; nos colares de linha e sementes, tão finos e delicados como os de ouro…
A madame desce. O ônibus segue.
Mas o principal a madame perde de fazer. Ela pediu para o cobrador parar e, ao pedir, hesitou em puxar a cordinha do sinal. Uma pena, pois a experiência de andar de ônibus foi incompleta. O toque suave da campainha do ônibus é o êxtase da viagem.
Madame, desculpe. Mas você andou, provou, agitou, gostou… mas não puxou a cordinha.

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