Baú de histórias

Ruínas da história
Contam que na “estrada da Abolição”…

Uma capela, um tumulo, um negro, um sacrifício e uma goiabeira fazem parte de uma história de milagres. No imaginário popular, uma questão de fé e piedade. Na história, resquícios do Brasil escravista.

Narram as pessoas de mais idade, que a atual capela Nossa Senhora da Penha, antes “Santa Cruz do Fundão”, erguida na região do bairro Ponte Preta, ainda no tempo em que era conhecida como região do “fundão”, mas hoje “Estrada da Abolição”, foi palco de uma história intrigante envolvendo a fé e um escravo.
Condenado ao tronco, o escravo desesperado procurou proteção junto a um vizinho e amigo do seu amo. Mas o que o menino negro não contava, era que o homem rude e perverso o trairia. Sorrindo, o senhor ouviu a história do “negrinho”. Com maldade nos olhos e sorriso nos dentes, o senhor escreveu o bilhete a pedido do menino. Analfabeto, como tantos outros escravos, o “negrinho” saiu feliz com o bilhete em mãos.
Já a caminho de casa, o escravo ansioso por ouvir o pedido de perdão escrito pelo senhor ou desconfiado, não se sabe, pediu a um jovem que cruzou seu caminho, ao voltar da escola, que lesse o bilhete. Então a surpresa. Em poucas palavras uma sentença de morte por tentar escapar do castigo tão merecido.
Sozinho, o menino partiu para longe do estudante. Ao ficar sozinho, enforcou-se em uma árvore onde hoje está a capela. O tumulo do “negrinho”, coberto de pedras e ornamentado com uma cruz foi construído ao lado da árvore.
A capela foi erguida, não se sabe o ano, e no local eram realizadas grandes festas também. Em 1875 o proprietário do imóvel Custódio Joaquim Prado assinou um ofício e entregou à Câmera Municipal a capela. Dizia estar cansado das arruaças.
A capela ficou fechada por longos anos.
Até 1932, a capela chamava Santa Cruz do Fundão, mas com a restauração, mobilizada por católicos, passou a se chamar Nossa Senhora da Penha, pois uma imagem da santa foi doada por uma fiel, que a trouxe intacta de outra capela em reunias onde foi pagar promessas.

Nas obras de restauro, o milagre aconteceu. Foi determinada a moção da goiabeira, e quando os galhos foram cortados, a árvore começou a chorar. Das lágrimas, curas aconteciam. Essas lágrimas, que contam não eram resina, em contato com ferimentos e tumores provocavam a cura instantânea.
Hoje não se encontram mais lágrimas dos galhos da goiabeira, e a capela está em ruínas. Tombada como patrimônio de Campinas, pelo Condepacc, e sem um dono previsível até o fechamento desta edição, a capela aguarda por cuidados e restauro. Quanto as lágrimas, dizem que duraram um mês, até que uma mulher ambiciosa começou a vendê-las.
E hoje, quem chora, é a abandonada Nossa Senhora da Penha. Esquecida, suas lágrimas se perdem em ruínas. E a fé dos homens ficou para traz, com o espetáculo das lágrimas.

Texto publicado na Revista A Tribuna (ANO100 Nº3.861-MAIO DE 2009). O quadro “baú de histórias está em sua 5º edição. Esse texto é o de número 03, do espaço Baú de Histórias. Fabiano Fachini. Fara contato fachinif@gmail.com

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