Perfil: O Pai Adotivo

pai adotivo solteiroVai ser inesquecível. Foi muito lindo. Eu tinha marcado que ia buscá-la numa sexta-feira, às 17h. Então, pedi pra minha colega de trabalho, que é a madrinha da bebê, pra ela me levar com o carro, porque eu queria vir pra casa com ela nos braços. Não comigo dirigindo! Queria apresentar o novo mundo pra ela dos meus braços. Aí nós fomos. Era uma tarde fresca, de março, e tinha chovido uma chuva fresca, tranquila, gostosa. E, ao descer do carro, na frente do abrigo, tinha um arco-íris lindo. Muito colorido, muito vivo. Eu nunca vou esquecer! Foi muito simbólico, muito marcante. Uma nova aliança, a nossa aliança. E aí eu entrei. Já tinha combinado que eu queria aprender a dar banho. Aí a monitora lá do abrigo me deixou dar banho. Foi me orientando, me conduzindo… A gente sua um pouco frio, a neném é muito pequena. Você toma cuidado de não machucar, de não escorregar, de ser agradável o toque. A monitora chegou a me dar uma nota nove.

O pai de primeira viagem Gilberto Semensato toma no colo a filha. Aconchega entre os brancos braços um bebê de quatro meses. Frágil. Dependente. De olhos negros, como pérola. De cabelo crespo e pele morena jambo. Do abrigo, segue para casa, onde uma recepção calorosa aguarda pela nova integrante da família: Ana Luiza Coldibelli Semensato. Coldibelli por parte materna da família do pai e Semensato pela parte paterna, também da família do pai. Em casa, a família recebe a nova integrante. Entre amigos e amigas, estão também a vovó, dona Maria e a babá, tia Antônia.

Gilberto é pai solteiro adotivo. Enfrentou as dificuldades da lei e aceitou a missão da paternidade. Uma vocação que reflete o trabalho e a personalidade de um homem solidário. Aos 43 anos, os desafios da paternidade batem à porta da vida de Gil, como a mãe de 84 anos o chama. A menina, de quatro meses, chega para fazer parte de uma nova família: pai, filha e avó.

“Sempre foi um gosto meio natural. Então, com um pouco mais de maturidade, de estabilidade de vida, eu falei: ‘olha, acho que está na hora de eu pensar na continuidade, numa posteridade. Está na hora de eu me dedicar a uma criança que eu possa educar’.” Assim, o desejo acalentado por longos anos vai tornando-se realidade. Em 2004 deu início ao processo. Após preencher os papéis e passar pelas entrevistas com psicóloga e assistente social, Gil formalizou o pedido de adoção. Em 2006 o juiz deferiu a inscrição e em 2008 chegou Ana Luiza.

Um dia, assim de supetão, conta Gil, recebeu um telefonema do fórum da Vara da infância e Juventude. “Me convidaram para ir conhecer uma menininha de quatro meses, sua história… Aí eu fui. A menina já me recebeu dando uma risadinha, uma gargalhadinha. Veio pros meus braços assim tranquila, feliz. Enquanto eu conversava com a assistente social ela acabou cochilando. Achei que foi um encontro gostoso.” E assim começou a história de amor de um pai que ainda busca compreender o sentido da paternidade, e a transformação que o fato de ser pai trouxe à sua vida.

O segundo passo foi levar a mãe, dona Maria, para conhecer a neta. Gil considerava importante compartilhar esse momento, pois a mãe mora com ele e a menina passaria a fazer parte da vida dos dois. O futuro papai viu a nenê tocar de leve o rosto da avó e conquistar o carinho da mesma. “Com a sinceridade que ela olhava a gente, com aquele olhar puro que ela tem, como não se apaixonar por uma coisinha linda dessas?”, conta com lágrimas nos olhos a vovó coruja.

Os planos mudaram. Gil esperava um menino de até quatro anos. Acreditava que seria mais fácil cuidar de um menino, além do mais, as possibilidades poderiam agilizar o processo de adoção. Mas ele não descartou outras possibilidades, tanto que aceitou os dois dias de prazo que a assistente social lhe deu para retirar a menina do abrigo.

Correu para casa. Os preparativos começaram. “Foi uma correria arrumar berço, roupa… ainda que alguns amigos ajudaram com isso. Foi uma reviravolta! Não tive muito tempo de cultivar uma ideia, uma ideia real do que estava acontecendo.

”O futuro papai empenhava todas as forças na preparação da nova visita que se tornaria para uma vida inteira. Além disso, estava sensibilizado, também, com a história que ouviu: a nenê havia sido rejeitada por dois casais, que, nas palavras de Gil, “não a sentiram como filha”.

Tudo foi dando certo. Homem de muita espiritualidade, falou a Deus em uma conversa muito pessoal: “Eu vou fazer toda a parte material que me cabe. Vou fazer a documentação, me sujeitar aos trâmites burocráticos… e se for vontade de Deus, se for uma missão, se for da vontade Superior… então as coisas vão fluir para que deem certo. E, se não for, então, morre aí, na consciência de ter feito o que eu podia”.

Ana Luiza chegou a sua nova casa acolhida de braços abertos pela família, pai, avó, babá, madrinha e amigos.

Nem tudo na adoção é cor de rosa

A adaptação da família vai ocorrendo aos poucos. A babá ajuda meio período todos os dias durante a semana. No entanto, nas manhãs, noites, nos feriados e nos fins-de-semana as responsabilidades recaem sobre os ombros do pai. A vovó ajuda, mas dentro dos limites da idade.

De olhos para o alto, o pai fala calmamente, como se avaliasse uma parte do percurso da adoção. “Sabe, eu acho que assim… essa luta da adoção, da adaptação, ela não é nenhum pouco cor-de-rosa. Ela é muito difícil. A realidade não é simplesmente aquele idealismo da adoção. O primeiro dentinho… Tem isso também, mas tem o lado muito real que é o da dor do rompimento do primeiro dente, é o choro, sabe? É uma adaptação também ao processo de realidade. É uma transformação.”

– Deve ser difícil… – digo durante nosso bate-papo na sala da casa de Gil.

– É difícil sim…

– Tinha que se virar.

– Tinha, tinha mesmo.

– Pensou em desistir?

– Na verdade, desistir não passava na minha ideia, mas passava, assim, a consciência do peso dessa responsabilidade, sabe? É aquela adequação entre o romantismo e o realismo. E teve momentos que eu fiquei, também, em estado desesperador. E eu pensava: meu Deus, será que ela não está me escolhendo? Que ela que não tá querendo ficar aqui… Mas, graças a Deus, tudo passa. E esse ditado eu tenho ele agora na minha vida. E as coisas ruins também não permanecem, e a gente procura ficar com o que foi bom, com as coisas boas.

– Há quanto tempo está com ela?

– É… há um ano e quatro meses.

Enquanto conversamos, Gil aconchega-se no sofá colorido. No colo, a gata Tchuca, que passou a se chamar “Cuca” depois da chegada de Aninha na casa. O homem de 43 anos, 85 kg e de aparência grande, que parece desmentir as medidas de 1,75, é tranquilo. Os ombros são largos, devido à antiga prática da natação. Uma saliência na barriga, rosto redondo, de pescoço largo e olhos baixos. Tem aparência apaziguadora e assume uma postura introspectiva, mas disposto a contar, quando a conversa chega a um ponto em que os olhos ficam embaçados e a voz embargada. O motivo: Ana Luiza estava doente.

Foi meu parto simbólico

Havia dez dias que Ana Luiza estava na casa, fazendo parte da família. E os dez dias seguintes foram de provação. Para todos, especialmente para Gil. Ana passou a apresentar dificuldades respiratórias e, levada ao hospital, teve o diagnóstico de bronquiolite.

A doença é comum nas crianças, especialmente entre os menores de seis meses. Os sintomas deixaram de alerta o pai: febre, dificuldade para respirar, incluindo o chiado no peito; dor de ouvido e o batimento de asas do nariz, que é o movimento das narinas (abrindo e fechando) que ocorre em situações de dificuldade respiratória na criança pequena.

Para o pai de primeira viagem, foram dias difíceis. Pela primeira vez passaria mais que alguns minutos no hospital. Até o momento, nunca havia sido internado. Agora, com Ana, ficaria dez dias no ambiente hospitalar, onde antes apenas passara para fazer procedimentos ambulatoriais. E, para surpresa, a mãe desenvolveu um sério quadro asmático. Ficou três dias internada, também. “Se não fosse trágico, seria cômico. Minha mãe ficou internada em um quarto, passava outro quarto já era a ala de pediatria, onde eu estava com a neném. A neném dormia e eu saia de lá para ver a mãe. Fazia esse trânsito de um quarto para outro”, conta Gil.

Olhando as fotos, Gil havia trazido uns 15 álbuns para mostrar ao repórter enquanto conversávamos, o semblante muda conforme passam as páginas do álbum. De repente, as lembranças vêm à tona, parecem ferir o coração do pai. Uma foto de Ana deitada na caminha de bebê do Hospital Celso Pierro da PUC Campinas, em lençóis brancos, com a máscara de oxigênio e soro no braço mudam o tom da conversa.

– Difícil ver ela assim? – Pergunto sem fixar os olhos em Gil.

– Nossa, demais. Porque, é assim: eu recebi um presente para tomar conta. E Ele (Deus) vai me pedir conta desse presente. Então, ver assim, ver dodói, é muito triste.

Longe do trabalho e de casa, Gil cuidava da menina. Dedicação integral ao presente que transformava sua vida minuto a minuto. Ver a menina deitada sob cuidados médicos, apertava o coração. Doía. Foi, nas palavras de Gil, “meu parto simbólico”.

O quadro mais triste da minha vida

Dona Maria, a vovó mineira, é apaixonada pela neta. Uma senhora que depois de quase oito décadas e meia de vida, vive com sorriso no rosto e disposição para correr na sala, se precisar, com a netinha. No entanto, guarda entre lágrimas um dos momentos mais difíceis e tristes de sua vida. No rosto marcado pela idade, uma lágrima desliza queimando a pele e cicatrizando o coração, enquanto suspira ao contar:

“Um dia eu chorei tanto com ela. Eu tava vendo televisão, umas oito da noite, e a neném só chorava. Daqui a pouco, eu num ouvi mais nada. Aí fui lá no quintal e encontrei o quadro mais triste que eu vi na minha vida: a neném debruçada no ombro dele soluçando, e ele soluçando em cima dela. Eu fiquei sem saber o que fazer com aquele quadro. Nem em pintura era tão triste”.

Emocionada, dona Maria lembra os dias que se seguiram após a também difícil internação de Ana Luiza. A menina chorava sem parar. Um choro compulsivo e a dificuldade de dormir que se seguiram por aproximadamente três ou quatro meses.

O pai estava desesperado, não sabia mais o que fazer. Cólicas? Não. Ela já não estava mais na idade de ter cólicas. Médico? Não adiantava, nem mesmo os remédios ajudavam. O choro persistia entre 8h e 10h da noite. Ana chegava a perder o fôlego de tanto chorar. O pai, muitas vezes, chorava junto. O sono, já não era tranquilo, mas intercalado com os soluços de Ana e com o medo de deixá-la sozinha.

O pai estava esgotado. As forças eram poucas. A emoção estava abalada e as alternativas esgotando-se. Para Gil, uma luz após as orações da mãe ajudaram: conversar. Essa era a última das alternativas de Gil para consolar o desespero de Ana. Então, mesmo com ela chorando, o pai conversava baixinho, com voz segura, firme e amorosa. “E com ela chorando, mesmo chorando, eu conversava baixinho dizendo que eu amava ela, que ela tava num outro momento de vida, que se ela tinha alguma outra lembrança de vida de dor de algum outro momento que ela já passou, do trauma de nascimento, de gravidez, de tudo, pra ela perdoar, esquecer, superar… que foi o caminho que o Papai do céu encontrou pra ela se encontrar comigo. Pra ela ter uma nova família, ser aceita e ser feliz. E… com isso ela foi se acalmando até que realmente parou e não apresentou mais esse tipo de problema. Foi uma solução muito encantadora… então depois disso a coisa foi entrando mais na rotina”.

O momento vivido pela família é guardado nas lembranças, e serve como motivação de uma vida melhor e como explicação para o momento de transição de vida. Agora, mais do que nunca uma família. Ana Luiza havia acolhido, de coração, a nova família que a recebeu de corpo, alma e coração.

Para a vovó, a menina precisava se desprender das lembranças do passado. E quem ajudou foi a oração, e não os remédios. Esse choro era reflexo das lembranças do apego à mãe biológica, “uma inocente, tadinha, que ficou abandonada pelo mundo e que a gente perdoa de coração”.

Antes tarde do que nunca

Licença Maternidade, concedida às mães biológicas. Consenso legal de 120 dias, agora extensível por mais 60 dias.

Licença Adotante, concedida às mulheres que adotam. Raríssimas são as exceções a homens dadas por empresas, devido a acordos coletivos. O período da licença depende da idade da criança.

Licença Paternidade, concedida a pais biológicos. Aproximadamente cinco dias úteis.

Já no serviço público federal, a Licença Adotante é concedida apenas para mulheres. Varia de um a três meses, dependendo da idade da criança.

Gil é assistente social há 15 anos no serviço público federal. Ao adotar Ana Luiza e procurar onde seu caso estaria enquadrado nas licenças, uma surpresa: homens não eram atendidos pela lei vigente (Lei 8112/90 art. 210).

Convicto de que a licença era um direito, necessário para a adaptação com a menina e para organizar a nova vida que teria a partir da adoção, Gil entra num processo de luta pelos seus direitos. Considera um vácuo discriminatório, na lei, do ponto de vista de não conceder a homens esse direito.

“A adoção tem um caráter diferencial que é a exigência dessa adaptação com a criança que veio com uma história de gravidez, nascimento e abrigo, normalmente traumática. Tanto o homem quanto a mulher deviam participar dessa adaptação da adoção. E não só a mulher, tendo que o homem ficar trabalhando. Foi por esse princípio que eu batalhei. Não é um luxo. Não é um artifício para não trabalhar. Não é privilégio, é pura necessidade. Quem tem criança sabe o trabalho que dá. E uma criança adotada, normalmente requer um diferencial. Então, não dá pra pensar que eu vou conciliar nos primeiros tempos, é claro, a adoção e o trabalho, principalmente se for sozinho. Como eu. É inconcebível.”

Após um ano de lutas na justiça, Gilberto conseguiu o direito a “licença adotante”, concedida, antes, apenas para as mães no serviço público federal. Um período de luta em que o pai jamais desacreditou na legitimidade da sua causa. E, deixou, também, seu nome na história, sendo o primeiro caso brasileiro de um servidor público federal a conquistar o direito à licença adotante como pai solteiro.

Com os 90 dias conquistados para ficar ao lado da filha, Gilberto comemora também a Resolução 60/2009, publicada pelo presidente do Conselho Superior da Justiça do Trabalho (CSJT), ministro Milton de Moura Franco, que torna a decisão uma normativa. Ou seja, abre precedentes para outros casos, tanto no serviço publico como no sistema CLT (celetista).

Nas palavras de Gil, nota-se o alívio em relação ao seu caso, e a alegria de contribuir com outras pessoas. “Então, do que valeu toda essa luta? Não foi apenas uma vitória pessoal. Ela teve uma amplitude social de abrir fronteiras, para primeiro corrigir uma distorção da lei; segundo, de facilitar que o mercado de trabalho concedesse esse tempo também para os homens; e, terceiro, também para estimular a adoção. Agora um homem, ao menos no serviço público federal, que sabe que tem esse direito, ele pode viabilizar mais o seu desejo, pois tenho certeza que muitos homens têm esse desejo, mas, a primeira coisa que vem é: eu não vou poder sair do trabalho pra cuidar dessa criança. Então não adota. Então agora sabendo que tem, ao menos viabiliza o desejo. E tenho certeza que logo isso vai sair da esfera normativa da justiça do trabalho e vai ser reconhecida como lei pra todos os casos”.

Gil passou a usufruir o direito em 15 de junho de 2009. A luta, no entanto, começou ainda em março de 2008. Assim que Ana se integrou à família, ele fez o pedido ao Tribunal Regional de Trabalho (TRT) da 15º Região, em Campinas (SP).

O presidente do TRT da época, juiz desembargador Luiz Carlos Araújo, negou administrativamente a licença no primeiro pedido. Na ocasião, Gilberto recorreu ao Tribunal Pleno, que acolheu o pedido com 15 votos favoráveis e quatro contrários em junho. Quão grande foi a surpresa de Gilberto quando o então presidente recorreu ao CSJT e pediu efeito suspensivo até que o recurso fosse decidido. O que ocorreu favoravelmente, por unanimidade de votos, quase um ano depois em Brasília.

“Mas antes tarde do que nunca. E ao menos é um direito compensatório. Uma vitória apaziguadora”, comenta Gil, ao lembrar-se das dificuldades enfrentadas nos primeiros tempos da adoção, sem amparo da licença adotante. Na época, Gil contava com duas férias atrasadas e a licença saúde, nos dias em que Ana esteve hospitalizada.

“E se eu não tivesse esse direito a férias?”, questiona Gil ao se lembrar de que, no serviço público, 30 dias afastado do trabalho significa processo administrativo e perda do emprego. Hoje, mais tranquilo, Gil aproveita a nova rotina ao lado da filha, com tempo para aproveitar a nova fase que Ana Luiza está vivendo, agora com um ano e quatro meses e a busca pela dependência nas pequenas atividades.

O doce mais doce é o doce de batata doce

Gil deita a menina no trocador de fraldas. Retira, com cuidado, a fralda da nenê. Solta as tiras adesivas que prendem os dois lados da fralda. Em seguida, levanta a parte da frente da fralda, sem mover Ana da posição. Segurando as perninhas da menina, utiliza o lenço umedecido para limpar o corpo dela. Fecha a fralda suja. Seca a pele. Coloca a fralda nova. Veste a roupa e Ana está pronta para o sono.

Parece simples. Mas, tudo aconteceu entre um pouco de choro de esperneio e brincadeiras.

– Quem fez cocô fedido?

– Olha, vou chamar a tia Antônia, heim!

– Você ficou com a caneta do titio Fabiano?

– Que cores tem a caneta?

– Roxio, papai.

– Tem roxo, Ana?

– E azul, tem?

– A Ana quer uma caneta assim também?

Entre palavras, brincadeiras e mãos delicadas, como precisam ser para a higiene da menina, o pai termina de trocar as fraldas. Ela, agitada, se acalma, e começa a rir com as caretas do pai.

Gil toma no colo a filha, e, para vestir a calça sobre a fralda, mais uma brincadeira: “olha o saco de batatas”. E joga a menina nos ombros. Pronto. Ana está vestida e dando gargalhadas.

“Vamos nanar?”, convida o pai. A filha já entende o recado e começa a chorar. Quer continuar brincando. Mas, logo o primeiro choro para. Dois minutos e o sono vem. Ana está no cochilo da tarde.

A rotina do pai Gil mudou depois de conseguir a licença adotante. Agora, em casa, aproveita para curtir todos os minutos ao lado de Ana. Logo de manhã, acorda a filha, prepara a mamadeira da manhã e leva para escolinha.

À tarde, por volta do meio dia e meio, busca Ana no berçário. Também o acompanho até o berçário. De carro, não mais que 5 minutos até o local. No portão, Gil aguarda de braços cruzados. Lá de longe, um grito alegre encanta o pai que se desfaz em sorrisos: “papai”.

A filha chega e o pai a toma nos braços. Enche de beijos. E a conversa não para. O pai quer saber tudo, se a filha comeu; se brincou; com quem brincou; se ouviu histórias; que histórias; se os coleguinhas vieram; quem faltou; da professora…

Entre a desconfiança e a curiosidade, ao ver o repórter no carro, Ana Luiza responde tudo para o pai. Ameaça o choro, mas o carinho e as palavras do pai a consolam.

Em casa, Ana é recebida com beijos da avó e da babá. Corre para os brinquedos. Um quarto cheio de bonecas. Todas colocadas em prateleiras que tomam três paredes, do chão ao teto. Incontáveis. No chão, um baú cheio de brinquedos e tantos outros pelo chão. Todos organizados. Nada de bagunça. No fim da brincadeira, Ana guarda os brinquedos. O pai brinca com ela e já sabe as dezenas de nomes das bonecas da filha: Zé belinha, a Didi, a Lili, a Sofia, a Thais, a Maricota… “Ela dá os nomes, e o papai acompanha ela nas brincadeiras”, comenta sorrindo o pai enquanto enche as mãos das bonecas entregues a ele pela filha.

Do quarto de brinquedos, para o quarto de “nanar”. O “mundo de Ana”, ousaria dizer. A pequena transformou o quarto em um grande brinquedo. Os pequenos móveis servem de trampolim ou esconderijo; entra embaixo do criado-mudo e gira de um lado para outro; depois, encontra um lugar para escorregar.

Agora, do grande brinquedo de Ana para o quarto do pai. De imediato, Ana corre para cima da cama. Encontra a gata Cuca e brinca. Desce da cama e ao som de músicas infantis começa a dançar. Tímida, recorre ao colo do pai, que entra na brincadeira e começa a dançar pelo quarto com a filha.

No rádio, ouve-se: “Qual o doce mais doce?” Depois, “a barata diz que tem sete saias de filó, é mentira, ela tem é uma só”. Ainda, tocam: “a canoa virou, por deixar ela virar, foi por causa…” … “como pode um peixe vivo viver fora d’água fria…” … “Alô, o Tatu ta aí? Não, o Tatu num tá. Mas a mulher do Tatu tando, é a mesma coisa que o Tatu ta.”

Ana joga o cabelo de um lado para o outro. Os cachinhos se perdem ao vento, levados pelas alegres e encantadoras gargalhadas da menina. O pai volta a ser criança. Perde-se nos passos e nos braços da filha.

– Tia Tônia. Pede a menina no fim de mais uma música.

Para o quintal, o pai leva a filha. Junto da babá, brincam feito crianças livres. No colo do pai, montados numa vassoura, saem a correr pelo quintal. A voar. Alcançam os mais altos sonhos e viajam pelos horizontes da liberdade. Livres no próprio mundo, onde só há espaço para o amor, para a liberdade, para a alegria. Para, de verdade, serem pai e filha. Longe dos olhares, da curiosidade, da burocracia… mas perto do amor. Olhos brilham, coração pulsa forte e os corpos exalam alegria. Dá vontade de montar em uma vassoura também e sair correndo pelo quintal, tentando alçar um desses vôos também.

– Agora acho que ela tá com soninho. Comenta titia Antônia.

O pai, com a filha no colo, corre para a cozinha brincando. Prepara a mamadeira, e canta uma das canções preferidas dos dois:

– Qual é o doce mais doce, que o doce de batata doce?

– A pepeta papai. A pepeta.

Para Ana, que adaptou a música para a sua realidade, o “doce mais doce, é a pepeta (chupeta)”.

No sofá, o pai aconchega a filha nos braços. Protetor. Uma muralha de força a defender a sua maior riqueza, mas macia e aconchegante para a filha adormecer. Ela se encaixa entre os braços do pai. Movimenta-se. Aconchega uma perna, depois a outra. Conforta um braço, e depois o outro. Começa a tomar o “tetê” e vai adormecendo aos poucos.

A rotina do pai está pela metade. Agora, leva Ana para o quarto. Troca as fraldas e a põe dormir. Mais tarde, lá pelas 16h, Ana levanta para o lanche da tarde. Depois o banho, as brincadeiras, e, as 21h30, é hora de ir pra caminha.

“Graças a Deus, um sono tranquilo. Agora ela dorme e eu também. Mas o meu sono é leve. Qualquer barulhinho eu tô de pé ao lado dela”, conta o papai.

Não que eu seja vanguarda nisso

Pai, mãe e filhos do primeiro casamento. Apenas do primeiro, nada de separação. A forma tradicional de família já está superada, acredita Gil. “A sociedade mudou. As pessoas mudam. As relações entre as pessoas mudaram. As configurações familiares, os novos núcleos de familiares são estruturados de outra maneira”.

Gil é pai adotivo solteiro. A família de dois, sem a figura da mãe, vai muito bem, obrigado. A realidade, completa o pai, é muito diferente do que as pessoas pensam. “Tantos filhos de pais divorciados; pais viúvos; morando com os avôs. É outro mundo. A questão não é tanto o modelo de família, mas o que torna significativo é o modelo de educação dentro dessa família”.

Buscar o equilíbrio entre o “sim” e o “não” na educação. Saber transmitir os valores, os princípios e as expressões de afeto. “Isso sim é importante. Você vê tanta família certinha, com pai, mãe, filhos… mas o modelo de educação está totalmente inverso, contraditório”, critica o pai.

As dificuldades surgiram aos poucos. Sutis, algumas vezes. Ou em forma de conselhos. “Você vai pegar sarna pra se coçar? Algumas pessoas chegaram a usar essa expressão!”, conta indignado o pai, que viu colegas questionarem de forma preconceituosa sua decisão, tendo em vista que ele era um homem solteiro, independente, com estabilidade na vida e no trabalho. Mas, para Gil, esse foi um projeto de vida, muito bem planejado. E, para aqueles que diziam ser “apenas fogo de palha”, Gil não discutiu, e, quando estava com a menina nos braços, estes, tiveram que aceitar a realidade.

Apesar dos comentários, Gil nunca deu ouvido. Aprendeu, como na simples história que fez questão em contar ao repórter: “sabe aquela história do burro e do avô? O avô sai para passear com o menino e coloca ele em cima do burro. Passam numa vila e as pessoas dizem: ‘que menino injusto, o vovô é que devia estar em cima do burro. O menino jovem, podia caminhar’. Então o avô desce o menino e sobe ele mesmo no burro. Já na outra aldeia, os comentários continuam: ‘olha que avô! Por que deixa o pobre menino ir andando?’ O avô então coloca o menino na garupa e ambos seguem montados e, surpresa. Na outra vila, criticam os dois, por estarem com todo aquele peso sobre o coitado do burrinho. Descem e passam a caminhar puxando o burro. Até que encontram outras pessoas que chamam os dois de ‘burros’, pois como podem caminhar enquanto tem um burro para levá-los?”.

Moral da história, como diz Gil. “Se você der ouvido a tudo que os outros falam, você não segue em paz sua trajetória”. E Gil seguiu a dele, ao lado da filha e de uma rede de amigos que se solidarizam com a história e a força de vontade da nova família. Pai, filha e avó.

Ainda me encanto com o mistério de ser pai

Entregue à filha. É assim que está o papai Gil. Ela move seus dias, sua vida, seus sonhos. Quando adotou, Gil se apaixonou pela beleza humana que encontrou em Ana Luiza. Não foi compaixão, mas paixão. Um sentimento belo e dignificante, pois Gil soube ver a beleza do humano que vive em Ana. Não adotou por dó, por compaixão de ver aquela menina abandonada em um abrigo. O sentimento que moveu sua ação foi maior, muito maior que o simples “ter pena”. Uma atitude digna de um dos grandes pais, São José, também adotivo. O adotivo pai de Jesus. Pai que acolheu, também, pela beleza que soube reconhecer no filho, e não por pena a Maria ou ao Filho desconhecido.

Gil transforma-se a cada dia, a cada sorriso, a cada suspiro da filha. “É gratificante. Eu acho que quem não tem esse papel de pai, de mãe, realmente não tem a dimensão desse papel. É um pouco inexplicável. Eu ainda me encanto com esse mistério de ser pai. De aprender a ser pai. Mas eu acho que é transformador. Principalmente pra quem tem esse tipo de vínculo tão direto, tão próximo! Às vezes o pai que só gerou e não participa, talvez não sinta tanto esse mistério, esse aprendizado. Esse engajamento. Esses desafios. Mas quem está assim participante, acaba tendo essa gratificação, esse diferencial. É extremamente compensador, sublimatório cada vez que ela fala ‘papai’”.

Enquanto conversamos, entre o caminho da sala à cozinha, Gil põe a mão no bolso e fala:

– Olha no bolso o que a gente tem! Uma presilhinha de cabelo da Ana. É assim…

– Está tomando conta.

– Está. Ela é o xodozinho da gente aqui. Mas nem por isso fazemos todas as vontades.

– E a personalidade dessa menina que conquista o pai e a avó?

– Ela é opiniosa. É forte. Eu acho que ela vai ter, assim, um sentido de autonomia muito grande. Eu to preparando ela pro mundo, e não pra mim.

– Para o mundo? E já pensou no futuro?

– Já! Claro. Eu e minha mãe já se pegamos aqui pensando: ela vai ser médica, vai ser pediatra. Não! Vai ser juíza. Olha, até combina, Senhora Doutora Juíza, Ana Luiza. A gente fica brincando. Ou bailarina, que ela gosta de dançar. Mas isso é brincadeira da gente, ela é que vai escolher o caminho dela em termos de carreira, profissão. De repente, assim: ‘alô! Ai papai, estou aqui em Nova York, Itália’, sei lá… ‘eu estou aqui estudando. Está tudo bem aí?’

– Tem que sonhar!

– Claro. Você não tem o controle do futuro, então, deixa rolar. Deixa o time jogar.

* Texto: Fabiano Fachini 

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