Chaminés

Por oras me pergunto: e as chaminés?
Em pleno tempo de inverno sinto o vento bater à porta de casa e, pelas primeiras vezes, não posso me esquentar ao redor do fogo.
Para um jovem catarinense, acostumado a temperaturas mais baixas, o frio aqui do centro-oeste está aos pés do frio sulino. Então você, caro leitor, me pergunta: “mas então, para que quer o fogão?” Eu diria, com saudade, que é pelo apego às lembranças de minha cultura.
Quando o frio pensava em bater à porta, a lenha já estava empilhada, rachada e seca, á espera de braços para carregá-las até o fogão, ou melhor, para a caixa de lenha, onde ficava a espera de ser queimada. Caixa de lenha que tinha vários modelos: a tradicional, feita de madeira ou, a convencional, uma caixa de papelão.
O fogo era aceso cedo. Antes de o galo cantar, os gravetos já estavam para virar brasa, junto das grimpas de pinheiro, colhidas na tarde do dia anterior durante os rápidos raios de sol que surgiam dispostos a secar o campo.
No estalar das brasas, a família ia se aconchegando ao redor do fogão a lenha. Das mãos de meu avô, o chimarrão ficava pronto. A segunda cuia era de minha avó, que enquanto provava do chimarrão, observava a chaleira com a água a ferver e, o barulho a embalar os primeiros pensamentos do dia. A cuia passava de mão em mão e dava ritmo aos causos contados e, aos afazeres do dia, que ali eram organizados.
E o fogo continuava ali, esquentando a chapa do fogão e aquecendo nossa conversa. Fogo este que durava quase o dia todo. Só tinha folga depois do almoço, quando eu acabava com a tarefa que me era encarregada: lixar o fogão. Sinceramente não gostava, mas, hoje, sinto saudade.
Este mesmo fogo o almoço cozinhava. Com mais alguns pedaços de lenha, as panelas mantinham-se quentes. O aroma daquela comida caseira preparada com carinho pelas mãos de minha mãe ou de minha avó, me dá água na boca ainda hoje.
E, depois do almoço, não deixávamos de provar um amendoim torrado com a casca no forno do fogão a lenha e, também, não resistíamos à batata-doce, assada ao calor da brasa. Que refeição! Depois disso, só uma cesta para reanimar o corpo.
“E as chaminés?”. Deve estar se perguntando o meu amigo leitor. Pois bem, falo delas agora.
Diferente desta paisagem morta de concreto que vejo, hoje, onde o verde cresce quase que por permissão divina, lá, onde as brasas aqueciam meu fogão a lenha, o verde era abundante. Um local onde as pequenas propriedades, oriundas da agricultura familiar, tomavam conta da paisagem.
De manhã, então, ao abrir as janelas da casa, uma paisagem natural, como que pintada pelas mãos de Da Vinci, estavam à minha frente. Os movimentos eram poucos: o vento balançava alguns galhos das araucárias, enquanto que a geada derretia muito lentamente. Ao horizonte, em meio às árvores e plantações, casas de madeira, poucas de material, com suas chaminés a marcar o espaço com a fumaça que, de cada uma delas, saía deixando seu rastro.
Quantos costumes deixamos ao sair de casa. Quantas mudanças enfrentamos. Seja do sul ou do norte, do leste ou do oeste, os costumes mudam, mas a saudade é a mesma.

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Cena I

Uma foto e mil palavras


Em pleno meio dia não tem como.
Não tem como segurar o sono, nem a fome. Enquanto mãe descansa, vitima do implacável sono, que não perdoa o cansaço do trabalho, nem o esgotar das energias, o bebê se alimenta.
Meio mal arrumado e nem tão confortável, apesar de colo de mãe ser como travesseiro de nuvens, o bebê curte seu lanche: uma mamadeira de leite.
O leite já não deve ter o sabor de antes, pois só no ônibus ele já está há uma hora. Talvez a mãe o tenha preparado antes de sair de casa, quem sabe 10h ou 11h da manhã.
Já passava do meio dia. A temperatura não era das melhores, pois estava abafado. Todos suavam. Os adultos sentiam-se incomodados e, a criança, então, nem se fala: no colo cansado da mãe, sem uma companhia para lhe sorrir; sem uma mão para lhe acariciar, a não ser o “calor” da proximidade da mãe, que todo filho sente, mesmo quando preza nas garras do sono, estava distante.
Seus olhos transmitiam um ar de curiosidade. O que pensava ela? O que formulava em seu pensamento livre das complicações e comparações adultas? Talvez estivesse tentando descobrir porque aquelas pessoas entravam e lotavam o ônibus, mas, do nada, sem motivos “compreensíveis” para aquele bebê, elas saiam e deixavam o ônibus vazio e, seus olhos, sem vidas para observar.
Talvez o bebê, cujo nome não se sabe, ainda não compreenda que a vida dos homens é assim: uma hora cheia, repleta de olhares e sorrisos, mas, de repente, vazia, sem muitas companhias. Os amigos da escola seguem caminhos diferentes; os da faculdade trabalhos distantes do seu; e, aquele discurso de que “vamos nos encontrar depois de formados” é ilusão. Ninguém volta a se ver, a não ser por acaso. Os familiares, alguns partem, outros se distanciam. Só alguns ficam.
E, assim, a vida passa e o ciclo recomeça, até chegar a hora de você descer do ônibus.

Uma cidade qualquer


É numa feia cidade de um belo povo que tudo aconteceu.
O feio viajante chegou na feia cidade e avistou a bela moça. Olhou e pensou:
-Bela.
A bela moça notou a presença do viajante e pensou:
-Feio.
O feio viajante se dirigiu à moça e na aproximação dos corpos entreolharam-se os olhos feios e belos.
Os feios disseram:
-Que belos.
Os belos disseram:
-Que feios.
O sorriso de um era belo e do outro feio.
O feio viajante começou a conversar com a bela moça e percebeu que de belo só o corpo. Enquanto a moça reconheceu no viajante o mais feio belo homem que conhecera em seus anos de vida.
A bela moça se apaixonou pelo feio belo viajante. Mas o feio viajante recusou a bela feia.
O corpo feio do viajante desejou o belo corpo da moça. O belo interior do homem sentiu repulsos do feio interior da moça.
O belo corpo da moça ignorou o feio corpo do homem. Já o feio interior da moça se curvou aos belos sentimentos do homem.
Os dois eram feios e belos, mas nem sempre os opostos se atraem.
Assim, o viajante deixou a feia cidade das mais belas feias moças que conheceu em suas andanças pelo mundo como caixeiro-viajante.
(F.Fachini)