O estresse e as boas histórias do trânsito

Biiiii. Bi bi. Biiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!

Buzina. Dedo em riste. Mãos agitadas. Braços nervosos. Sinal fechado. Carro atravessado.

Calma!

O trânsito é assim mesmo, uma prova de fogo para os nervos. Não há como negar: é chato, cansativo e estressante.

Melhor: MUITO ESTRESSANTE.

No ônibus ou no carro. Na moto ou na bicicleta. De patinete ou a pé. Não há opções: o jeito é rezar e pedir paciência, porque se nosso bom Deus der força… aí sim a coisa fica feia.

“As coisas estão passando mais depressa.

O ponteiro marca 120.

O tempo diminui.

As árvores passam como vultos.

A vida passa, o tempo passa.

Estou a 130.

As imagens se confundem…”

… já dizia o rei Roberto Carlos.

Não que possamos andar a 120 ou 130 na cidade de Valinhos, aliás, em nenhum lugar podemos andar nessa velocidade, seja pela nossa segurança ou das outras pessoas. Mas o tempo, este “ser” intocável insiste em passar a todo momento… este sim continua a canção e ultrapassa os 200 km/h.

A cidade pode ser pacata, de “interior” para quem mora na capital, mas a vida é agitada. O entra e sai de pessoas na cidade pode ser visto a todo momento, nos amontoados de carros no trevo ainda em obras na entrada da cidade, ou nos ônibus abarrotados na Rodoviária.

Há dois anos trabalho na cidade do Figo. Tirando os últimos meses, sempre usei o ônibus para chegar de Campinas a Valinhos. Já presenciei algumas cenas que com certeza seriam capa de jornais.

Nestas viagens, digo viagem porque eram duas horas de meu bairro até o local de trabalho – e três ônibus –, encontrei o casual: jovens que não cedem lugar no banco para idosos; estudantes lendo livros; moleques ouvindo funk a todo volume no celular; mulheres cantando “hinos de louvor” em voz alta com fone de ouvido; trabalhadores arrumados pela manhã; trabalhadores dormindo no final do dia; ônibus quebrado; vendedor de doce (e milhares de adjacentes…); estrangeiros perdidos; gente comendo coxinha, esfira, pastel…

Mas isso tudo é normal.

Agora, um homem amarrado no banco do ônibus… isso é excepcional! Preocupado que o motorista corria no ritmo de Roberto Carlos, querendo chegar aos duzentos, ele puxou uma enorme faixa da mochila e se amarrou ao banco. Louco? Não! Segurança.homem amarrado no onibus de valinhos - foto fabiano fachini

“Colega. Colega, bom dia. Bom dia colega”. Quem já pegou o 313, rumo ao São Marcos, já ouviu essa frase de um senhor animado que entra no ônibus gritando esta frase ao motorista e aos passageiros. No começo você estranha, depois se acostuma e agora de carro sente até falta.

Andar de ônibus tem suas vantagens. Você “vê” a cidade com outros olhos. Conhece o povo que circula pelas ruas e bairros. Entende um pouco da realidade social. Fica sabendo dos problemas de saúde no bairro e do atendimento no posto de saúde, das aulas na escola, dos assaltos, das “patroas” chatas ou piriguetes… o ônibus é uma comédia ambulante.

Não li, ouvi ou assisti um filme que fosse capaz de traduzir esta realidade. Talvez porque ela só exista para aqueles que sentem de perto, que realmente se deixam tocar pelos momentos diferentes do coletivo.

O carro é prático e facilita o deslocamento, mas depois de uma viagem, não terá tantas histórias para serem contadas como se estivesse no ônibus.

***
Crônica publicada no dia 14 de março, no jornal Folha de Valinhos, a convite do Editor Marcos Araújo. Obrigado pelo convite, boa leitura amigos. A foto está apenas aqui no blog, para confirmar a história do homem “amarrado”.

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Brincadeira de criança: IRRESPONSÁVEL!

Hoje fiz meu primeiro atendimento em um acidente. Isso mesmo. Uma criança que atropelou o ônibus.

Atendimento ao pequeno Tiago (Foto: Fabiano Fachini)

É, parece brincadeira.

O ônibus passou e o Thiago, que tem uns 10 anos, saiu da escola correndo para “pegar” ou “passar a mão” no ônibus. Atravessou a rua e meteu a mão no ônibus. Com o veículo em movimento, ele acabou girando e o pneu de trás (parece ficção) passou por cima do pé/perna.

Quebrou!

Resultado: todo mundo desceu do ônibus para ver. As crianças da escola e as famílias da rua também foram olhar o menino caído com a perna quebrada.
Ajudar? Poucos, mas errado. Tudo errado. Só faltou colocar o menino de pé ou na bicicleta!
Enfim, fui pra lá. Mandei a criançada sair da rua e darem espaço. Mantemos, então, o menino no chão. Conversamos com ele até a ambulância e PM chegarem – demorouuuuu!
Pois bem, chegaram e deixei o menino com eles e a vice-diretora da escola.
O pai do menino chegou nervoso. Mais vontade de brigar do que ajudar o filho.


– CALMA PAI. Seu filho precisa de você. Abaixa e dá a mão para ele.
– Mas o que aconteceu aqui! – disse o Pai, com punhos cerrados.
– Seu filho precisa de atenção. Mas o que aconteceu é que seu filho correu atrás do ônibus! O motorista não viu nada, não tem culpa. Calma!


Assim, um linchamento foi evitado.

Pra fechar o dia “com emoção”!

Lembranças de uma longa viagem de ônibus

Prestes a completar 14 anos de vida saí de casa para estudar.

Por três anos morei em Caxias do Sul – RS até completar o segundo grau. Em 2005 passei pelo dilema de voltar para casa, e a vontade era muito forte, ou então dar mais um passo além e ir para Campinas – SP, cursar Jornalismo na PUC Campinas.

Hoje, 2011, já atuo na área de minha profissão, com meu diploma conquistado em 2008, numa despedida da faculdade considerada memorável. Boas notas; muito aprendizado; conhecimentos adquiridos; um TCC nota 10 e premiado; algumas outras premiações na faculdade e no Jornal Estadão; bons amigos e boas recordações.

Mas não estou escrevendo para falar de meus estudos ou profissão ou da Pós que fiz logo ao sair da faculdade.

Estou escrevendo dentro de um ônibus. Isso, num ônibus que embarquei há 18 horas para viajar de Campinas – SP minha atual cidade, até a casa de meus pais, em SC, na cidade de Caxambu do Sul.

O ônibus é uma finte de inspiração para mim. Já pensei em um dia contar todas as histórias que me aconteceram dentro de um ônibus. Seria um tanto quando emocionante, se falar das primeiras viagens, cômicas de outras e até românticas. Ou então, passar uma viagem toda escrevendo, sem parar. Seriam 18 ou 20 horas de viagem e muitas palavras.

O que me impede? Não sei, como todo aspirante a escritor sou muito critico com minhas palavras.
Já escrevi tantos textos e os calei na gaveta de um armário do quarto numa caixa de recordações escolares, lá onde guardamos cadernos com nossas primeiras letras de fôrma, frases, contas, poemas… nome do primeiro amor, cartinhas e recados… saudades.

Escrevo porque meu note ainda tem bateria e porque as paisagens, mesmo conhecidas de muitas outras viagens, merecem ser descritas. Afinal, são minhas companhias desde 2002, 9 anos que viajamos juntos.
Estas paisagens de SP até SC ou de SC a SP tornaram-se parte de minha vida em 2005, quando me tornei filho da PUC. Desde então viajo duas, três ou quatro vezes no ano. Numa conta rápida foram em média 21 viagens que duraram entre 18 e 21 horas.

Prefiro não saber o resultado dessa conta!

Mas tudo vale à pena. Rever a família, já que não posso seguir minha carreira escolhida em meu Estado – não considero as melhores condições de trabalho e, além disso, das cidades que venho jornalista só mesmo é o Willian e Fátima.

Então, lá vou eu tentar minha vida fora de casa e na expectativa de um dia ainda voltar para minhas origens. Quem sabe no futuro, daqui alguns anos…

Mas se precisar parar de fazer estas viagens vou sentir falta. O pior que é verdade. Ás 20 horas desta viagem, por exemplo… as histórias não foram das melhores, a não ser as 3h de atraso. As pessoas desta viagem são tranquilas. A mais animada é uma menina, de uns três aninhos. Cantou, dançou, pulou no banco até cansar. Apagou de madrugada, mas acordou animada logo cedo. Menina que despertou sorrisos no rosto de uma freira que viajava compenetrada em sua leitura.

Mas minhas velhas companhias, as paisagens, continuam lindas. Dessa vez, os campos estão amarelos. A colheita do milho e da soja deixou os campos limpos. Ainda tem as pastagens. Nesta época pré-inverno elas estão verdes e fortes em algumas regiões. Outras estão levemente sacas, pela falta ou excesso da chuva.

Tem os rios, limpos e envoltos de uma verde mata.

Mas o que sempre me chama a atenção são as imponentes e soberanas araucárias. Os “pinheiros”, como também são chamados. No sul, são abundantes. Sobressaem mesmo cercados por outras vegetações. Suas copas são vistas de longe, atingem entre 20 e 50 metros de altura.

Quando criança, morava no interior com minha família… meus avós, primos, tios moravam nas redondezas. No interior de Xaxim, numa comunidade chamada Linha Santa Lúcia, em homenagem a santa dos olhos, pode-se comparar a uma chácara (do estado de SP, mas das bem retiradas), cresci vendo essas araucárias que, uma vez por ano, nos presenteavam com o pinhão, um fruto delicioso, saboroso e saudável. Pode ser cozido na água, assado na chapa do fogão a lenha ou então assado no campo, numa fogueira com grimpas de pinheiro. Tem para todos os gostos.

grimpas

Lembro que de manhã, ainda com orvalho, quando não um frio de geada branca pelos campos, colocava um par de botas dos meus avós e saia pelo campo em busca de colher pinhões pelo chão do potreiro. Os pinhões, frutos que caem das pinhas, lá do alto das copas das Araucárias fêmeas, ficavam entre o gramado que crescia aos pés das soberanas araucárias, como que não apenas para alimentar o gado, mas para amaciar a queda dos frutos.

Era uma brincadeira colher os frutos logo cedo, em um balde ou sacolinha (sacola plástica de mercado).
Nunca subi em uma araucária, até o topo. Primeiro porque são espinhentas e sua casca machuca. Segundo porque eram sempre meus tios os mais fortes quando eu era criança e, então, ficavam eles encarregados de subir e derrubar as “bolas” ou pinhas. A mim restava recolher do chão e torcer para que alguma ficasse inteira para poder quebrá-la contra uma pedra. Terceiro porque ainda gurizinho cai de uma árvore e quebrei o braço. Não quero outro gesso para coçar e não poder tirar!

Hoje apenas aprecio estas árvores tão belas. Quem sabe são elas, e ainda estou por descobrir, que me impulsionam a crescer cada vez mais, mesmo envolto de muitas outras pessoas, sempre buscando meu espaço para, um dia, também chegar ao topo.

***
OBS: para esclarecer, a viagem teve início dia 14 de abril, às 16h15. O ônibus da Reunidas (uma das empresas que mais desrespeita seus “clientes”) partiu com sentido a Santa Catarina. Cheguei na cidade de Chapecó dia 15 de abril, às 13h. Ou seja, quase um dia de viagem devido aos atrasos do motorista, as paradas desnecessárias, por fazerem com o mesmo ônibus duas linhas ao mesmo tempo – Piracicaba p/ Frederico Vespali e São Paulo p/ Frederico Vespali. A… sem contar que os ônibus da Reunidas estão em péssimas condições: bancos desconfortáveis, água gelada não existe e as TVs estão apenas para enfeite. Queria saber se estes itens estão inclusos no valor da passagem…

Aviso II – Tranque a porta senhora

Acontece comigo no ônibus…

Fones e música alta. Ônibus pára na garagem para abastecer, repor água, calibrar pneus… é prevenção. Mas é também essa é a palavra que uma senhora de 60 e poucos anos de estrada deveria usar.

Prevenção, prevenir, precaução…

Ao usar o banheiro do ônibus é necessário, além de fechar a porta, travar a fechadura. Um mecanismo simples, mas muito eficiente.

Fazer xixi, ou melhor, fazer qualquer coisa com o ônibus andando é complicado.

Pensando nisso, acredito eu, a senhorinha resolveu usar o banheiro naquele momento em que o ônibus estava parado. Facilitaria fazer o número um ou até mesmo o dois, se o fosse.

Levanto da minha tranquilidade para ir ao banheiro, pois antes de começar a pequena viagem de 20h eu já havia pensado em ir, mas acabou deixando par amais tarde.

Levanto. Caminho em direção ao banheiro. Luz de “ocupado” desligada e porta levemente encostada.

Puxo.

Abro.

Fecho.

Suspiro.

Não deveria ter feito isso.

Caramba!

Uma mulher agachada. Pior, uma senhorinha agachada. Nua. Com calças na canela e calcinha no joelho.

Um segundo.

Uma foto.

Um flash.

Um piscar de olhos e fechei a porta. Fechei o mais rápido do que abri.

Um reflexo.

Olhei para os lados e apenas um rapaz parece ter visto a cena, porém não mudou a expressão do rosto, o que me fez crer que apenas acordou com a batida da porta e voltou a dormir.

Já eu sentei. Havia dois lugares vagos e aproveitei para me recompor. Era preciso.

Aguardei uns instantes e a senhora saiu do banheiro. Convicta, não olhou para trás, mas deve ter procurado o abridor de portas de banheiro. Pior, eu era o único de camiseta amarela no ônibus.

Tomara que ela tenha ficado é amarela de susto, e esquecido da cor da minha camiseta.

Oras! Mas quem mandou não travar a porta?

O mecanismo é simples, como disse. Basta girar a trava. Uma trava apenas. Inclusive é essa mesma trava que liga a luz. Concluindo, assim, que além de fazer as necessidades com a porta aberta, ela estava no escuro. E graças a eu ter aberto a porta a luz ficou novamente acesa.

Por isso dois conselhos: trave a porta do banheiro, seja do ônibus, do avião, no trabalho, em casa, no churrasco… e, é claro, coloque em prática a palavrinha prevenção.

***Acontece comigo no ônibus. Em breve mais histórias

Aviso primeiro: Tranque a porta!

Se há algo fundamental e que desde criança deve-se aprender é trancar a porta. Seja com chave, com trinco ou tramela.
Na ausência destes, faça o possível para firmar a porta com um móvel ou, ainda, com o próprio pé.
A finalidade maior destes cuidados é evitar experiências constrangedoras, tanto para aquele que se esqueceu de trancar a porta como para aquele que abrir sem bater.
O girar da chave é essencial, mais do que se possa cogitar. Em um ônibus então, como é importante girar a trava de segurança do banheiro.
Para começar, use-o em casos de extrema urgência, pois as condições são um tanto quanto nauseantes.
Não tenha medo de girar a trava do banheiro, pois ela não impera, ao menos foi criada para isso.
Mas para aqueles que desconhecem a função “evite constrangimento” da trava, deixa a mercê todos os outros que, em última instância, dirigem-se para satisfazer as necessidades mais intimas e reveladoras de um ser humano.
Calças arriadas até o joelho; cotovelos apoiados na parte superior do joelho e mãos apoiando o queixo cansado e o rosto de sono. Pai de dois meninos, este senhor aparentava os 55 anos de um homem que viveu do trabalho pesado e desgastante.
Mas ali, nessa posição, era um homem qualquer, tão desprotegido quanto à própria careca ao sol.
A triste visão não durou um quarto de segundo. O impulso criado pela visão do estranho e constrangedor fez com que, em menos de um piscar de olhos, o braço que abriu a porta torna-se a fechá-la.
Os olhos assustados e ao mesmo tempo incrédulos no que viram procuraram pessoas acordadas que pudessem ter presenciado a patética cena. Mas todos pareciam dormir, afinal, eram 3 horas da madrugada.
De volta à poltrona, a única coisa que os olhos viram, antes de cair em sono profundo, mesmo que entre risos, foi o senhor voltar para seu lugar junto dos filhos e, passo a passo, a procura do invasor de privacidade, o qual não encontrou.